O velho contador de histórias sentou com dificuldade em sua cadeira acolchoada ao entardecer e lembrou-se do tempo em que as crianças corriam atrás de contos de fada, os meninos atrás de histórias de terror e as adolescentes em busca de contos de amor. Havia desenvolvido uma habilidade tão grande em contar histórias, que era fácil fazer parte dos contos que criava. Naquele momento, entretanto, fazia tanto tempo que não contava sequer uma história que não sabia se seria capaz de o fazer se alguém, por engano, o pedisse que fizesse. Não era mais nem criador, nem criatura e se entristecera consigo. Como deixara chegar a aquele ponto? Para onde partir depois que sua paixão é esquecida dentro de si mesmo? A rotina e o desinteresse alheio lhe pareciam uma mera desculpa que alguém dá quando simplesmente não tá afim de fazer algo. É certo que não tinha mais tanta liberdade pra andar como outrora, o último inverno havia lhe tirado qualquer perspectiva de longevidade. Mas que se dane, pensou, não era isso que iria lhe impedir de revisitar sua paixão. Girou a cadeira um pouco para a esquerda e encontrou o seu público. Em frente, havia um espelho pouco enferrujado pelo destrato, mas que refletia, ainda que opaca, a imagem de um senhor de pele negra e olhos claros, mas enfraquecido pela doença. Faltava-lhe a pior e mais importante parte: o quê contar. Por alguns longos minutos reparou em seu reflexo no espelho que o questionava com os olhos de até quanto tempo ele teria que ficar ali, esperando pelo o que haviam lhe prometido. O senhor da cadeira apenas acenou com a cabeça: “Não iremos a lugar nenhum”, disse tentando não ser pressionado. Eis que, sem fazer algum esforço, o velho balbuciou algumas palavras em direção ao espelho: “Os contos do contador”. Estava pronto para a sua última história.
No man can walk out of his own story.
(Spirit of the West, Rango)




“Medo é um atraso de vida. E o da mudança é o pior deles…”